As referências espanholas na música Vaca Profana

Caetano Veloso é famoso por sua voz e suas letras, verdadeiros poemas, que dão palavras às suas melodias e pensamentos. Nem sempre elas tem um sentido muito claro, talvez por liberdade poética, talvez por uma verborragia da alma do compositor. Vaca Profana, cantada por Gal Costa, é uma dessas músicas que se termina de ouvir e se pensa: “que ele tá falando aqui?”.

Pois então, esse é um sentimento comum até mesmo para estudiosos de música e literatura, tanto quanto para os apaixonados pela obra de Caetano. E nem mesmo quem a escreveu dá alguma pista muito clara sobre o que ele quis dizer com a letra. Em seu livro “Letra só”, ele explica o seguinte:

“Estava na Europa e, atendendo a um pedido de Gal, fiz essa canção de refrões mutantes que são difíceis de memorizar. Na verdade é também uma canção sobre Gal. Ou melhor: procura dialogar com a persona pública de Gal. Tem muitas sacações bacanas.” (VELOSO:2003).

E a gente ainda assim fica: oi?

Antes de explicarmos as diversas menções à cultura da Espanha, assista Gal Costa cantando esta pérola da MPB.

Vaca Profana
Caetano Veloso

Respeito muito minhas lágrimas
Mas ainda mais minha risada
Escrevo, assim, minhas palavras
Na voz de uma mulher sagrada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Vaca profana, põe teus cornos
Pra fora e acima da manada
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona de divinas tetas
Derrama o leite bom na minha cara
E o leite mau na cara dos caretas

Segue a “movida madrileña
Também te mata Barcelona
Napoli, pino, pi, pau, punks
Picassos movem-se por Londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca de divinas tetas
La leche buena toda en mi garganta
La mala leche para los “puretas”

Quero que pinte um amor Bethânia
Stevie Wonder, Andaluz
Mas do que tive em Tel-Aviv
Perto do mar, longe da cruz
Mas em composição cubista
Meu mundo thelonius monk’s blues
Mas em composição cubista
Meu mundo thelonius monk’s blues
Ê, ê, ê, ê, ê,
Dona das divinas tetas
Quero teu leite todo em minha alma
Nada de leite mau para os caretas

Sou tímido e espalhafatoso
Torre traçada por Gaudi
São Paulo é como o mundo todo
No mundo, um grande amor perdi
Caretas de Paris, New York
Sem mágoas, estamos aí
Caretas de Paris e New York
Sem mágoas estamos aí
Ê, ê, ê, ê, ê,
Vaca das divinas tetas
Teu bom só para o oco, minha falta
E o resto inunde as almas dos caretas

Mas eu também sei ser careta
De perto, ninguém é normal
Às vezes, segue em linha reta
A vida que é “meu bem, meu mal”
No mais, as “ramblas” do planeta
“orxata de xufa, si us plau”
No mais, as “ramblas” do planeta
“orchata de chufa, si us plau”
Ê, ê, ê, ê, ê,
Deusa de assombrosas tetas
Gotas de leite bom na minha cara
Chuva do mesmo bom sobre os caretas

La mala leche para los “puretas”
Nada de leite mau para os caretas
E o leite mau na cara dos caretas
Chuva do mesmo bom sobre os caretas
E o resto inunde as almas dos caretas

A Espanha em Vaca Profana

Grande parte das menções são da Catalunha, outras de Madrid. Mas todas muito íntimas de movimentos artísticos e políticos. Vamos à lista!

 

Movida Madrileña

Foi um movimento contracultural que surgiu em Madrid na década de 70 durante a transição da ditadura franquista para a Democracia. A Movida Madrileña se prolongou até o final da década de 80, e deixou grandes nomes gravados na história, como o cineasta Pedro Almodóvar.

 

Barcelona

Capital da Cataluña, cidade sempre muito ativa culturalmente e, certamente, muito marcante para Caetano e qualquer artista que viva a cidade por um período – ainda mais na década de 70 e 80.

 

Pi

Significa “pinho” ou “pinheiro” em catalão. Também é referência ao cantor catalão Pi de lo Serra, da “Nova Canção”.

 

Pau

Pau é Paulo em catalão, mencionando Pau Riba, cantor catalão da “Nova Canção” e único roqueiro entre eles.

 

Picassos

Aqui é clara a referência ao pintor Pablo Picasso, mas a junção de palavas “punks/picassos”, Caetano quis falar que os punks londrinos parecem-se com quadros do pintor.

 

Puretas

Gíria espanhola, nova na época, que significa “careta”.

 

Andaluz

Gentílico para quem nasce na Comunidade Autônoma de Andaluzia. Andaluz ou Andaluza.

 

Gaudí

Arquiteto espanhol, também da Cataluña, do qual se reconhece seu estilo de longe por conta da sua expressão única em seus projetos. A Sagrada Família e Parque Güell, por exemplo.

 

Ramblas

Significa passeio, calçada, em catalão.

 

Orchata de Chufa

Bebida catalã feita com noz.

 

Si us plau

Significa “por favor” em catalão.


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